sábado, 9 de abril de 2011

triste bahia

Foi realmente engraçado quando minha filha mais velha, Ana Flávia, me contou, abismada e aos risos, que sua avó, Paloma, queria saber se ela ia pular carnaval. A adolescente, com todo aquele sarcasmo da idade, respondeu perguntando: "pular???". A velha, acostumada aos bons tempos da folia de momo, ainda era adepta do verbo que melhor condizia as intenções dos foliões em outros tempos. Sou mais fã do tempo da vovó e já pulei alguns carnavais em Salvador. Mas não há que se estranhar o repúdio e espanto de Ana. Ela tem 13 anos e é dessa pobre geração musical (coitada!) do carnaval. Sempre entendi a folia como festa pra pular mesmo. Até porque as canções nos remetiam a isso: pular, dançar de qualquer jeito, extravasar, esquecer o mundo e externar a alegria. Eram frevos e galopes de levantar até defunto. Fora as chamadas "músicas agitadas", éramos contemplados com belíssimos samba-reggaes que continham verdadeiras aulas de história do Brasil. É óbvio que a canção não é algo estático e sofre influências e modificações. As misturas e incursões com outros ritmos e movimentos musicais são bem-vindas. Sempre serão, desde que somem e agreguem algo ao que já estava plantado. Porém, o que vem acontecendo com o carnaval de Salvador, em termos musicais, é uma verdadeira involução. Suponho que tudo isso seja fruto de um sistema educacional cada vez mais fajuto e sucateado, onde as canções perderam qualquer possibilidade de digestão, se trouxerem algo mais que histórias pitorescas regadas a muita cachaça, amor banal e barato, e sexo de uma forma vulgar e imbecil e suas devidas mímicas. A deseducação sombria que assola a população brasileira fez com que três canções completamente absurdas em todos os aspectos musicais (letra, canção, métrica, harmonia e até em ritmo, que poderia se salvar, mas nem isso) chegassem aos páreo de melhor música do carnaval 2011 em alguma premiação dessas dezenas aí. O terceiro lugar foi para... tchanrantchantchan... "tu quer beber? Eu não! Num quer por que? Tu quer fumar? Ãh ram!", cujo refrão, com afirmações negativas, cola na mente: "Vou não, quero não, posso não, minha mulher não deixa não". Essa é daquelas que surgem do nada e vão pra lugar nenhum em fração de segundos. Esquece. O segundo lugar foi outra pérola, inclusive pela criatividade. Tchubirabirom. Nem sei e nem vou pesquisar no Google se escrevi certo. Mas está aí a nova palavra do nosso dicionário. Tchubirabirom é o nome da música, cujo significado quer dizer... ninguém sabe dizer o que quer dizer. O que importa é colocar as mãos pra frente, cintura, cabeça e... tchubirabirom!. Vida curta pra essa também. E a grande vencedora é, talvez, a pior das três. A música mais demente que já tive o desprazer de escutar em meus 33 anos de existência. Ela é a que melhor representa todos os problemas (citados acima) que uma música não deveria ter. É completamente ruim em todos os sentidos. Não salva nada. Depois de tudo isso, só pode ser eu o maluco, lógico. Por que uma pseudo-música, repleta de problemas, é a grande vencedora como melhor música da maior festa popular do mundo... Isso é para que se percebam a que ponto chegou o nível musical do carnaval de Salvador. A tal da Liga da Justiça, que comete loucuras na composição (e deixou Luciano Huck tão boquiaberto quanto eu), tocou tanto nessa festa que eu nem soube das músicas rotuladas de axé. Qual foi mesmo o carro-chefe de Daniela Mercury, Asa de Águia, Banda Eva, Cheiro de Amor, Chiclete com Banana, Cláudia Leitte, Margareth Menezes e Ivete Sangalo para a folia? Me avisem aí que não me informaram. Pois aonde eu fiquei só tocava: "foge, foge Mulher Maravilha, foge, foge com o Super Man", a música do famigerado grupo LevaNóiz, que possui site oficial, com agenda de shows e até fã-clube. E acredite: o nome da banda eu tenho certeza que escrevi certo.

3 comentários:

Cristhiane Castro disse...

Fábio, meu querido, vc disse tudo. Sou fã da música baiana, mas todo esse declínio tem me espantado, e muito!
Quando a gente pensa que já ouviu de tudo, vem uma banda de nome LevaNóiz e consegue emplacar uma música com um erro grotesco de concordância como música do Carnaval.

Elaine Teixeira disse...

Gostei muito do seu texto, jornalista!

Paula Cintra disse...

Amei, vc como sempre bota para quebrar, adoro seu humor sarcatico kkkkkkk....Essa Ana Flavia ta demais kakakak...saudades