sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

tem serventia

Sempre que vem uma edição do BBB e os "metidos a intelectuais de plantão" se manifestam dizendo que não vão assistir porque é uma porcaria, uma idiotice mas terminam assistindo, chegam na minha caixa de emails aquelas mensagens de protesto. O pior é como a última que recebi, e que me motivou a escrever estas linhas, que vem com assinatura de nomes de peso, talvez com o intuito de dar credibilidade e convencer as pessoas. Luis Fernando Veríssimo, indiscutível cronista brasileiro, foi a vítima da falcatrua de um dos "metidos a intelectuais de plantão" dessa vez. Na mensagem, dentre aquelas mesmas argumentações de que o programa não educa, que a Rede Globo lucra milhões com as ligações, que todos os telespectadores são imbecis, ele citou, com o objetivo de demonstar o quanto ele respeita e valoriza a diversidade humana, a frase "não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer". Esse tipo de declaração, que pela construção, já é homofóbica, também é super manjada nesses textinhos "senso comum" que rolam em época de BBB. Mas resolvi falar sobre ela mesmo assim.
Ora bolas, "intelectual", é óbvio que cada um faz da vida o que quer. Mas essa argumentação, tão deslumbrante, não cabe no contexto. Em um mundo extremamente insano, onde imperam como animais dominantes, os mais intrometidos do reino, que são os humanos; onde o caráter, personalidade, aceitação social e capacidade intelectual das pessoas, são analisados e avaliados de acordo com seus mais íntimos desejos, que são os sexuais (isso nos casos em que o comportamento ou estereótipo entrega, diga-se de passagem), será que alguém escolheria ser gay? Com o mínimo de neurônios passeando pelo cerébro, a resposta é não. Conclusão: não é uma questão de escolha e de "fazer da vida o que quiser", como se fosse algo adquirido no mundo externo e absorvido pela pessoa. É aquela velha história, homofóbica, que se o menininho com seus 10 anos, vê dois homens se beijando, vai querer fazer o mesmo (engraçado é que ele vê zilhões de homens e mulheres se beijando e não faz efeito...). A homosexualidade não vem de fora para dentro. Abandonemos essa ignorância tamanha. É nítido que os gays já nascem gays e desenvolvem, assim como os heteros, pois não há distinção como seres humanos, essa sexualidade ao longo da vida. Inclusive o universo sexual é algo muito complexo para esses "intelectuais" definirem em uma tacada só.
No BBB 11, por exemplo, (olha a utilidade do programa...), há quatro gays completamente diferentes, excluindo o caso ainda mais complexo que é o da Paula (tri?!). A única mulher, Diana, se diz homo, mas beija os homens com calor e desejo de uma hetero, sem tirar nem pôr. Ela não está fazendo tipo. Está claro. Porém, o estereótipo dela é gay... os jeitos e trejeitos... Quem só olha, aposta que ela só deseja mulheres, mas não é. Quanto aos dois homens, são gays de gerações diferentes, digamos assim, com suas semelhanças também. Eles são do tipo que se vestem e comportam como heteros, mas gostam, exclusivamente no que diz respeito a sexo, de homens. E o assunto aqui é desejo e não ato sexual, visto que a orientação se pauta pelo sentimento e não pela ação na hora de transar. A principal diferença entre eles é de época mesmo, com mudança de estereótipo. Daniel é mais franzino e efeminado, padrão que imperava em sua geração e Lucival é forte, musculoso e sem afetações, mais comum na era atual. Como se diz na Bahia: "é mais plantado". E Ariadna? Essa transexual é a que melhor desconstrói a frase do gênio sobre "fazer da vida o que quer". O caso das transexuias, que vai além das travestis, pois essas mantém a genitália masculina por uma série de motivos que só em outro post para discutirmos, é fantástico. Quando Pedro Bial chama os participantes de heróis e "neguinho" pira, eu concordo com Bial. Há um quê de heroísmo sim em expor sua vida, invadindo a casa das pessoas pela televisão, seu comportamento, mesmo quem em competição por R$ 1,5 milhões. Mais ainda para uma transexual, que é a Mulher Maravilha dessa edição (que os pagodeiros não leiam esse texto...).
Ela não fez da vida o que ela quis. Essa afirmação é muito simplória e superficial. Ela fez da vida dela o que ela teve que fazer. Ela é uma mulher, e por favor não me atirem pedras, mulheres outras. Só que ela, Ariadna, como tantas outras Ariadnas por aí, nasceu com um pênis entre as pernas e anatomia masculina. Mas quem somos nós, além de humanos intrometidos, para julgar a formação humana de alguém por questões biológicas?
Desculpe-me a ciência, mas é reduzir demais uma análise que requer profundidade. Ela apenas adequou seu corpo à sua mente. E ficou plena. Respeitemos, e mais que isso: valorizemos as diferenças.
Agora, repare o tamanho desse texto.
Tá vendo que o BBB serve para alguma coisa?

3 comentários:

Giselle disse...

Concordo em gênero, número e grau. e acrescento: só cresceremos enquanto seres pensantes, quando pararmos de enxergar como um burro (animal irracional, que usa uma tapadeira nos olhos, para não se distrair com coisas alheias)e ampliarmos nossos horizontes, vendo que o mundo vai além da nossa mísera ótica.

Elenilson Nascimento disse...

Sem comentários o seu texto.
Mas respeito a sua opinião.

Elaine Teixeira disse...

Gostei muito do texto!!!