sábado, 17 de março de 2007

pimenta, tchê!

Considerada por muitos especialistas como a maior cantora brasileira de todos os tempos, a gaúcha Elis Regina (1945-1982), se estivesse viva, completaria hoje 62 anos de idade.
Suas interpretações, banhadas de vibração e técnica incontestáveis, ajudaram a revelar e amadurecer grandes compositores do nosso cancioneiro, como João Bosco, Ivan Lins, Gilberto Gil (que ela considerava seu compositor predileto), Belchior, Milton Nascimento, e só não lançou Chico Buarque porque resolveu pensar sobre o assunto: Nara Leão (1942-1989) foi mais rápida.
Ganhou o apelido de "pimentinha", devido ao seu comportamento muito agitado, o que contribuía para sua obsessão pela perfeição. Exigia muito de seus músicos e de si mesma, resultando em um verdadeiro brinde ao seu público fiel. De personalidade forte e bem definida, Elis envolveu-se com tudo de forma radical: com a música, com a política, com a vida. Tinha sempre a frase certeira, a mente afiada e propósitos firmes, o que a colocava no limiar da questão: uns a amavam, outros a odiavam.
Tornou-se conhecida nacionalmente em 1965, ao sagrar-se vencedora do I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior, defendendo a música Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes (1913-1980). Em seguida gravou Dois na Bossa ao lado de Jair Rodrigues, com tal êxito que nos anos seguintes foram lançados os volumes 2 e 3. Foi também ao lado de Jair que apresentou um dos programas musicais mais importantes da música brasileira, O Fino da Bossa, estreado em 1965 na TV Record.
Interrompeu uma carreira brilhante, que estava no auge, quando foi encontrada morta no quarto do seu apartamento em São Paulo, vítima de overdose de drogas, no dia 19 de janeiro de 1982. Elis Regina Carvalho da Costa gravou 27 discos, 14 compactos simples e 6 duplos, deixando, além de um legado imensurável para a música brasileira, três filhos: o produtor musical João Marcelo Bôscoli e os cantores Pedro Mariano e Maria Rita.

quinta-feira, 8 de março de 2007

público x privado: há limites?

Ontem, por volta das 21h, saí do Centro de Convenções, onde assisti à aula inaugural da FIB (aula magna). Saí contente, apesar de ter que caminhar até a entrada (ou saída, depende do ponto de vista!) do bairro da Boca do Rio para pegar o buzú, pois o tema - Universidade Nova - foi muito bem ministrado pelo seu idealizador, o reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Naomar de Almeida.
Infelizmente, a discussão apresentada no título nada tem a ver com a proposta de reestruturação das universidades brasileiras, que suplica por um necessário debate, mas inicia-se justamente no momento em que entrei no ônibus. Ao registrar minha passagem e empurrar o torniquete, estranhei a ocupação regular dos assentos, exceto um par do lado direito próximo à porta de saída. Resolvi (como quase nunca faço) duvidar daquele ditado, "quando a esmola é grande, até o santo desconfia", e caminhei até o banco, crente que estava "abafando". Mais dois passos e vi a cena horripilante, mas não muito incomum aos passageiros de transportes coletivos: um vômito já ressecado, que deixou resquícios no assento e um "sopão" no chão.
Assumo que é uma descrição bem asquerosa, entretanto necessária para compreendermos a situação. Pois bem. Como o diabo corre da cruz, fugi daquele troço fedorento! Dei meia-volta e fiquei de pé mesmo, próximo ao cobrador, observando a cena, as pessoas e imaginando o que escrevo agora.
Problemas a circundar nossa sociedade são inúmeros, um deles, que parece imperceptível à maioria dos indivíduos, é a confusão entre o que é público e o que é privado. Vale frisar que é mais um problema ligado ao originador de todos os outros: falta de educação. Na minha explicação, baseada somente no meu "achismo", mas que suponho haver sentido lógico, serei bem objetivo. Há que se entender algo básico - e talvez por isso passe sem o devido crédito - que o que é de uso público não quer dizer que não tenha dono, mas que todos somos os supostos "donos".
Portanto ao usarmos algo público, devemos sempre pensar coletivamente, no outro que vem depois. Diferente de algo privado. Aí já é problema estritamente seu. Se em uma viagem, você sente um mal-estar e quer vomitar, vomite no interior do seu carro! Afinal de contas, ele é seu, particularmente seu, só seu. Faça o que quiser e arque com as consequências. Porém, a maioria não absorveu essa lógica ainda (talvez, nunca!). Muito pelo contrário! No ônibus, que apesar de pertencer a empresas privadas é de uso público, o enjoadinho de plantão não faz cerimônia: arreganha a boca e despeja sua porcariada dentro do veículo, que várias pessoas distintas usam ao mesmo tempo. Se a ânsia de vômito viesse quando essa mesma pessoa estivesse dentro do seu carro particular, sabe o que ela faria? Abriria a porta e expeliria tudo na rua.... que é pública e não tem dono.

quarta-feira, 7 de março de 2007

implantação da universidade nova carece de debate

O ensino superior no Brasil é alvo de mais uma discussão. A proposta do reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Naomar de Almeida Filho, denominada Universidade Nova, vai além daquela já apresentada, desde 2003, pelo Ministério da Educação (MEC), cuja ênfase é mais política que acadêmica. O objetivo é modificar a base, visando a uma transformação radical na estrutura da arquitetura acadêmica da educação superior brasileira.
Durante a aula inaugural do Centro Universitário da Bahia (FIB), no último dia 7, às 19h30, no Centro de Convenções da Bahia, Naomar exibiu os limiares de sua moção, que possui questões inovadoras, mas deixa alguns questionamentos em aberto.
A estrutura curricular confusa, com um sistema de títulos desarticulado e numerosas qualificações são aspectos bastante peculiares do modelo curricular atual. A Universadade Nova baliza e minimiza tais problemas, porém não os resolve. No modelo presente nas universidades, o estudante pode obter uma formação superior com licenciatura ou bacharelado. Isso sem contar as habilitações, ênfases, e o mais recente diploma de tecnólogo. Há também as denominações profissionais diretas (médico e dentista, por exemplo), especialização, mestrado, MBA, e doutorado. Essa enxurrada de intitulações é maléfica para o profissional. “Há risco de isolamento intelectual e até recusa em alguns países desenvolvidos, devido à incompatibilidade dos títulos”, pondera Naomar.
A Universidade Nova tem a proposta de dar outra cara à estrutura curricular dos cursos profissionais, baseada nos dois grandes modelos mundiais: o norte-americano e o europeu. Bacharelado Interdisciplinar (BI) é a denominação que substituiria a graduação atual. O BI teria a duração de 3 anos e seria dividido por 4 grandes áreas do conhecimento: humanidades, artes, tecnologias e ciências, esta, sub-dividida em mais 5 grupos (da matéria, da vida, da saúde, da sociedade e sociais aplicadas). Para dificultar ainda mais, o BI poderá ter 3 formações (geral, diferencial e profissional) e um curso tronco, cada um com suas inúmeras especificidades e características.
Outro agravante: a proposta inova, mas não simplifica a organização curricular. O projeto idealizado pelo reitor da Ufba busca solucionar evidentes problemas no ensino superior. Precocidade na escolha da profissão é um item nulo com a implantação do BI, já que o aluno tem 3 anos para decidir-se, estando já no âmbito acadêmico. O BI também extingue a formação tecnológica-profissional e inculta, favorecendo o fomento à cultura, devido à amplitude das disciplinas oferecidas a todos os alunos. Outra questão fundamental é a flexibilização curricular. “O estudante pode construir seu currículo e evitar decepções. Isso visa a diminuir a taxa de evasão escolar que é de 40% nas universidades públicas”, diz Naomar. O reitor da Ufba considera “primitivo” o atual processo seletivo e fala em ajustes. É difícil discordar dessa rudimentariedade, entretanto não é apresentado, concretamente, o substituto do traumático vestibular, e nem como seriam as seleções internas. Outra lacuna é a exclusão das faculdades particulares (grande maioria em Salvador, diga-se de passagem) do projeto, que só prevê as instituições públicas. Não há um motivo explícito para isso. Em relação ao sucesso da aplicabilidade do projeto, há uma questão curiosa: a Universidade Nova é uma homenagem ao educador Anísio Teixeira. Na sua explanção, Naomar também cita o ex-reitor da Ufba, Edgar Santos. Juntos, formam um trio de profissionais de prestígio e todos possuem formação baseada naquele modelo da universidade de Coimbra...! Diz-se que a esperança é um risco que se precisa correr, portanto é esperar para ver.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

mais um carnaval

Todos os anos o Carnaval de Salvador tem uma novidade. Nada programado, nada formulado ou planejado. É, simplesmente, mais um endossamento daquele velho, mas infalível ditado: “baiano não nasce, estreia”. Pois é, depois do boom do Afrodisíaco (atual Vixe Mainha) no ano passado, quem imaginava alguma surpresa em 2007? A sensação do momento atende pelo nome de Motumbá, o refrão de sua música repete incansavelmente a palavra “bororó”, e é capitaneada pelo ex-timbaleiro Alexandre Guedes. Assim funciona o vulcão do Carnaval de Salvador, sempre a derramar novas lavas.
E tem mais: após dois anos afastado (e muito burburinho), Caetano Veloso está de volta à folia de Momo. E com a corda toda. Vai liderar, ao lado de Jauperi (ex-Olodum e, recentemente, Vixe Mainha) um trio independente com nome homônimo ao novo filme de Monique Gardenberg, baseado em uma peça do Bando de Teatro Olodum, Ó Paí, Ó. Inclusive ele assina, em parceria com Davi Moraes, a composição da canção também homônima ao filme. Já está confirmada a presença do ator baiano Lázaro Ramos, que integra o elenco do longa, a ser lançado ainda em março.
O compadre Gilberto Gil tem cadeira cativa na festa, como é de praxe, com seu Expresso 2222. Entre os convidados ilustres: os carioquíssimos Lulu Santos, Toni Garrido e Sandra de Sá, e uma justa homenagem à cantora baiana Margareth Menezes. Sempre desinteressada por fórmulas musicais, que visam exclusivamente o consumo fácil, Daniela Mercury ataca – como raramente faz – de compositora e assina, em parceria com Manno Góes (do Jammil), sua canção de trabalho para este carnaval: Quero A Felicidade. Uma canção ritmada que preza o otimismo e a esperança. Após o cinema nacional, em 2006, a baiana elétrica vai vangloriar as culturas populares do Brasil neste carnaval. A homenagem será dividida por regiões. Daniela vai cantar forró, música eletrônica, e até canções ligadas ao folclore brasileiro para um baile infantil, vestida de “Nega Maluca”.
O inquieto Carlinhos Brown não fica por menos. O multiartista baiano apresenta o Baile do Bloco Parado e o Pipocão. Com o intuito de atrair o folião “família”, ele promete fazer do Museu du Ritmo (antigo Mercado do Ouro), no Comércio, um novo circuito do carnaval. De sexta a terça se apresentarão por lá, artistas como Margareth Menezes, Babado Novo, Timbalada, Zélia Duncan, Daniela Mercury, Chico César, dentre outros. Na segunda-feira de carnaval, Brown comanda seu trio independente, onde os foliões poderão usar tiaras em forma de pipoca. Mais uma alfinetada de Brown em seu constante discurso em prol da democratização do carnaval.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

bom e velho frevo baiano

Quem foi o primeiro cantor de trio elétrico? A primeira pessoa a emprestar sua voz aos frevos instrumentais que eram executados nos trios elétricos, na década de 70? O cantor, compositor e instrumentista baiano Moraes Moreira, que completa 60 anos de idade este ano foi o tal. Após sua saída do grupo Novos Baianos, partiu, em 1975, para a carreira solo, dedicando-se, principalmente, ao carnaval da Bahia, cantando e colocando letras nos frevos instrumentais da dupla Dodô & Osmar, como Pombo Correio.
Em meados dos anos 80, já reconhecido e consagrado devido ao sucesso de músicas como Chão da Praça, resolveu afastar-se do carnaval por entender que a festa estava entregando-se demais à sedução comercial e perdendo a essência. Mesmo com a ausência de Moraes, o carnaval continuou. Dodô e Osmar, que há 55 anos inauguraram as tocatas, deram prosseguimento à invenção mirabolante e à adaptação do frevo pernambucano ao carnaval baiano. Aliás, o ano de 1975 foi o momento do retorno deles à festa de Momo, após longa pausa; e, quando conseguiram, enfim, gravar seu primeiro disco. O título Jubileu de Prata remetia aos 25 anos da invenção, de fato, do trio elétrico (um Ford 29, bem diferente do modelo contemporâneo). Após 40 anos de parceria musical, Dodô morreu, em junho de 1978, e deixou a cargo de Osmar levar ainda mais adiante a criação da dupla de baianos.
A partir da década de 80, surge a participação do (há tempos promissor) guitarrista Armandinho. Agora fica “Trio Elétrico Armandinho, Dodô & Osmar”. Com o passar dos anos, o trio não se fechou às novas tendências musicais e incorporou na sonoridade do conjunto a batida dos blocos afro e afoxés e músicas de outros compositores, como o cearense Fausto Nilo e o baiano Walter Queiroz.
Com a forte consolidação da chamada Axé Music, no início dos anos 90, eles pararam com o lançamento anual de discos. Em 1996, receberam uma justa homenagem de vários artistas, com a gravação de um CD, contendo grandes sucessos da dupla. Participam do projeto Moraes Moreira, Alceu Valença, Elba Ramalho, Daniela Mercury e Asa de Águia, dentre outros. Em 1997, Osmar Macedo vem a falecer. Mesmo sem a força de outrora, sob liderança de Armandinho, a família Macedo ainda mantém acesa, no carnaval da Bahia, a chama da dupla Dodô & Osmar.
P.S.: o frevo faz 100 anos hoje.

sábado, 28 de outubro de 2006

uns mais iguais que os outros

Às vésperas de sua despedida da Timbalada, o vocalista Ninha, ao comentar sobre Carlinhos Brown, disse algo real e interessante: "Ele está sempre na frente, sempre reinventando, quando você pensa que vai pegar no calcanhar dele, já deu mais um passo". O motivo de apresentar essa passagem da entrevista de Ninha é para fazer uma analogia entre a relação da TV Globo e suas "concorrentes" (concorrentes?!). Mais precisamente, os debates envolvendo os candidatos a presidente em 2006. É a mesma coisa. Imaginava-se, como na maior parte dos outros, um debate enfadonho (o que não deixou completamente de ser), mas a maior emissora do país inovou e renovou, como faz o já citado artista baiano.
Supunha-se que por ser o último debate (e desta vez quase todas as emissoras apelaram para a discussão televisiva com a duvidosa desculpa de favorecimento à democracia), descambaria ao fracasso, ao cansaço. Mas não. Sob novo feitio e enfeites tecnológicos, o debate apresentou os dois candidatos à vontade no palco, livres para circular e sentar (e se entreolhar, e se encarar). Willian Bonner, o mediador, esbanjou competência, comando e objetividade desde a apresentação das regras (e pelo que declarou ao final, era uma estratégia da emissora para não ultrapassar o horário legalmente permitido).
Sob uma pesquisa do Ibope, 80 eleitores indecisos de todas as regiões do país, compuseram a plateia e conduziram a discussão a partir dos seus questionamentos, frente-a-frente com os presidenciáveis. Desta vez, os jornalistas (da respectiva emissora organizadora do debate), nem estavam lá para dispararem suas perguntas aos candidatos, o que deu até saudade, devido ao que foi ouvido.
Não é responsabilidade direta do presidente se "o meu patrão não assinou minha carteira", ou se "em minha casa entra água quando chove". O rebolado dos presidenciáveis trouxe essas e outras questões para o universo da discussão prevista. Esse formato apresentado pela Globo (talvez, ou, certamente, sem intenção) propiciou a estratégia de Lula, pois obrigou os candidatos a falarem sobre planos e propostas de governo. Ainda assim, Alckmin não titubeava em atacar o governo atual e seu partido, em qualquer oportunidade possível. O tempo mais curto para as respostas tornou o debate menos consistente, mas mais diligente. Conseguiu, sem muito esforço, manter o espectador aceso, frente à televisão (até aquela hora!). Foi o melhor debate. Teve a dose certa entre afronta e respeito, delações e reconhecimentos entre os candidatos. Apesar do olho-no-olho, pega-pega, risadinhas e tom meio irônico, o âmago entre os debates foi o mesmo: o petista convence pela verdade (a quem interessar possa) e o tucano pela oratória (a quem, também, interessar possa). Como dissera os Engenheiros do Hawaí, os debates envolvendo os candidatos a presidente, no fundo, foram "todos iguais, tão desiguais, uns mais iguais que os outros..."

terça-feira, 24 de outubro de 2006

mais do mesmo

O título do texto é uma alusão a uma canção da saudosa Legião Urbana, que retrata, exatamente, o que ocorreu no debate presidencial promovido pela Rede Record: mais do mesmo. A começar pelos mediadores. Exceto Ricardo Boechat, na Band, os outros já foram da poderosa e maldita (pela própria classe jornalística) Rede Globo. Ana Paula Padrão, no SBT, Celso Freitas, na Record e Willian Bonner, que irá mediar na própria Globo, na sexta (27). O alvo deste texto é o debate de ontem (23), na Record, porém refere-se a todos os anteriores.
Pois bem. As repetições começaram no formato, idêntico aos outros. Mediador no centro, os candidatos postados, cada um, à direita e esquerda do apresentador. Platéia arrumadinha (às vezes nem tanto) à frente de tal cenário, munida, dentre interessados diretos (políticos e organizadores de campanha), de jornalistas especializados, ávidos para questionarem os presidenciáveis da vez.
Celso Freitas, então, anuncia as mesmas regrinhas castradoras. Regras elaborados para um robô programado responder, ou exigir que enquanto o candidato responda, faça uma contagem regressiva mentalmente para se situar. Convenhamos que o tempo (pelo visto, regra geral e imutável) de 2 minutos é curto, tanto que quase sempre é estourado pelos falantes. A temática do debate da Record foi a mesma: Alckmin nunca fala de planos de governo (o grande objetivo de um debate), só de denúncias e problemas relacionados ao partido que o presidente-candidato Lula é filiado. Até as respostas do atacado são as mesmas: apuração, será feita apuração e punição aos merecedores.
O comportamento dos oponentes também é o mesmo. O petista um pouco mais nervoso, tenso e com discurso guiado pela emoção, e o tucano mais equilibrado, estratégico (?!) e dramático no sentido cênico. Parecia estar em um eterno teste para novelas. Talvez pelo fato de estarmos próximos às eleições, esse confronto perdeu em agressividade. Não que essa seja uma característica primordial em tais eventos, mas, com certeza, desperta o telespectador na sua poltrona.
O falatório repetitivo e monótono deu o tom do debate. Geraldo e sua política à moda antiga, de discursos prontos, enfatizando os temas de modo geral (vou melhorar a educação, vou aumentar o emprego, vou melhorar a saúde....), quando o faz, e insistindo que tudo está péssimo no governo Lula. O petista, indiscutivelmente mais carismático e menos "malandro", seduz pela estampa verdadeira, humilde e projetos reais, mas enjoa com as comparações a outros ex-presidentes. Para quem assistiu aos outros debates, esse tornou-se pouco proveitoso.
Para não ficarmos bitolados somente nas igualdades entre os debates, teve, pelo menos, uma distinção. A Record colocou a contagem regressiva na tela, certamente para demonstrar credibilidade ao telespectador quanto ao fiel cumprimento dos prazos pré-determinados (ainda que a decorrência do tempo seja mais importante para o candidato visualizar). Sem muita ilusão, de diferente mesmo foi só isso! Sobre o ocorrido no debate, finalizo com o que diz o slogan da campanha publicitária (que ele caracterizou como "desperdício") do candidato tucano: nem mais, nem menos, apenas os fatos.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

minha casa

Estive ontem (23), na Concha Acústica prestigiando o show do magnífico maranhense Zeca Baleiro. Isso me lembrou reouvir os discos dele (tenho os 5, e ainda aquele em parceria com Fagner). Considero-lhe, ao lado do pernambucano Lenine, do paraibano Chico César, do baiano Carlinhos Brown, dentre outros, um dos ícones da música brasileira. No deleite da canção "Minha casa", dele próprio e faixa de abertura do CD "Líricas", percebi, como acontece em muitas outras músicas, uma identificação ímpar comigo. Resolvi postar. É uma canção sobre realidade e como diz o autor: "de esperança, apesar do aparente desencanto".


é mais fácil cultuar os mortos que os vivos
mais fácil viver de sombras que de sóis
é mais fácil mimeografar o passado que imprimir o futuro
não quero ser triste
como o poeta que envelhece lendo maiakóvski na loja de conveniência
não quero ser alegre
como o cão que sai a passear com o seu dono alegre sob o sol de domingo
nem quero ser estanque como quem constrói estradas e não anda
quero, no escuro, como um cego, tatear estrelas distraídas
amoras silvestres no passeio público
amores secretos debaixo dos guarda-chuvas
tempestades que não param
pára-raios quem não tem
mesmo que não venha o trem, não posso parar
vejo o mundo passar como passa uma escola de samba que atravessa
pergunto onde estão teus tamborins
sentado na porta de minha casa
a mesma e única casa
a casa onde eu sempre morei

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

vivo

Há alguns dias, na faculdade, aula de Mari Fiorelli, determinado assunto trouxe à tona a questão da aquisição de CD's. A professora foi incisiva e, aparentemente, convicta da resposta, quando perguntou: alguém aqui ainda compra CD? Todos negaram, inclusive eu. Ela obteve a resposta que imaginava. Mas eu não quis, ou não tive coragem, ou não estava a fim mesmo de polemizar. Eu compro CD. E muito. Eu coleciono e só compro original, na loja. Sei lá, acho que herdei isso da minha mãe (se é que é possível haver genética nesse assunto). Minha mãe faleceu há sete anos (precisamente dia 23 de agosto de 1999), mas até lá, ela colecionava vários apetrechos: selos, pedras raras, moedas, livros, filmes e discos. Hoje dou continuidade. Atualizei (afinal, sou da era do CD e DVD!) e ampliei apenas as coleções de discos e filmes. Vergonhosamente, a de livros, enxuguei. As outras, sem dó, extingui.
Pra quem tem esse espírito de coleção, só vale o original, o completo. Só ouvir a música, por ouvir, não é interessante, ou completamente satisfatório. Eu quero a obra completa, a história musical, os compositores, as parcerias, os músicos envolvidos. Coletânea, não compro. Monto, de acordo com a minha preferência, apenas para colocar no carro. Coletânea não é gostar do artista, mas dos sucessos daquele artista. Assim é fácil! E nem sempre o fácil me seduz. Pra quem coleciona, o encarte, o cheiro de novo são fundamentais. A busca pela obra completa, é tudo. Um dos meus motivos de viver, um dos meus maiores prazeres, sem hesitar ou pestanejar, é a música. E CD, só original!
Agora vai uma canção de Lenine e Carlos Rennó, que está no disco In Cité, de Lenine, gravado ao vivo na França em 2004 (é difícil encontrar um "piratão" desse álbum!). Chama-se "Vivo" e, sob o jogo e malabarismo com as palavras, tão peculiar de Lenine (influenciado, sem dúvida, por Gilberto Gil) fala sobre a essência de um ser humano, no caso eu, pois me apossei da música. Até porque a arte está aí para adequarmos a nossa interpretação.


precário, provisório, perecível
falível, transitório, transitivo
efêmero, fugaz e passageiro

eis aqui um vivo

impuro, imperfeito, impermanente
incerto, incompleto, inconstante
instável, variável, defectivo

eis aqui um vivo

e apesar
do tráfico, do tráfego equívoco
do tóxico do trânsito nocivo
da droga do indigesto digestivo
do câncer vir do cerne do ser vivo
da mente, o mal do ente coletivo
do sangue, o mal do soropositivo
e apesar dessas e outras
o vivo afirma, firme, afirmativo
"o que mais vale a pena é estar vivo"

não feito, não perfeito, não completo
não satisfeito nunca, não contente
não acabado, não definitivo

eis aqui um vivo

eis-me aqui

domingo, 1 de outubro de 2006

rapa tudo

O grupo O Rappa surgiu há 12 anos, no Rio de Janeiro. A voz rouca e viril do vocalista Marcelo Falcão, aliada a letras de rebeldia e repúdio às distinções políticas, econômicas e sociais do Brasil, são marcas inconfundíveis da banda. A sonoridade instigante, suingada e indefinível faz o grupo transitar, sem dificuldade, entre alternativo e popular, absorvendo em seus shows um público de várias tribos. A formação atual é Marcelo Falcão, Xandão, Marcelo Lobato e Lauro Farias. O compositor Marcelo Yuka decidiu abandonar a trupe, a partir de 2001, devido a uma incompatibilidade ideológica das suas composições em relação aos outros integrantes.
Eles possuem 6 discos lançados ao longo da carreira, uma média de 1 a cada 2 anos. Tais números apontam para um louvável desdém dos rapazes à sedenta indústria fonográfica. Ainda assim, a fidelidade do seu público faz d’O Rappa um considerável vendedor de discos. As cantoras Maria Rita e Vania Abreu regravaram a canção “Minha Alma (A paz que eu não quero)”, em seus últimos álbuns. Essa situação demonstra a dimensão que vem alcançando o trabalho d’O Rappa. O seu leque de admiradores é ampliado por nomes como Zeca Pagodinho e o grupo Cidade Negra. Esse crescimento do conjunto carioca, em parte, vem do fervor espontâneo das suas apresentações ao vivo. A dedicação, principalmente do vocalista Falcão, é algo metafísico. Segundo crítica publicada no jornal O Globo (agosto/2001), “desde a Legião Urbana que não aparecia uma banda tão sintonizada com os corações e as mentes dos brasileiros”.