A justa e merecida homenagem a Roberto Carlos pelos seus 50 anos de carreira feita por um time de cantoras brasileiras foi aquém do esperado. O especial Elas Cantam Roberto, exibido ontem (31), na TV Globo, teve seus altos e baixos, por assim dizer.
Logo na abertura uma grande decepção. Uma das maiores cantoras do país e, sem dúvida, a maior artista do Brasil já há alguns anos, Ivete Sangalo não arrebatou na interpretação de Os seus botões. Música surgida na época de maior inspiração de Roberto e Erasmo, uma das maiores joias da leva de canções de cunho erótico da dupla (..."nos lençois macios, amantes se dão, travesseiros soltos, roupas pelo chão..."), ela não teve a letra enfatizada como deveria. Os graves afinados de Ivete, como diria Bethânia, são indiscutíveis. A capacidade vocal da juazeirense não está mais em pauta faz tempo, mas ontem ela deixou a desejar no quesito interpretação. Por isso, a música passou e ninguém viu!
Diferente de sua conterrânea Claudia Leitte. Apesar de ser uma cantora que ainda precisa amadurecer e aperfeiçoar o canto, a novíssima baiana arriscou mais na apresentação. Não fosse alguns deslizes e derrapadas - frutos da gana de acertar - Claudia Leitte teria sido perfeita. A ex-vocalista do grupo Babado Novo cantou de dentro pra fora e dramatizou expelindo verdade no cantar. Falando sério, outro diamante da lavra de Os seus botões, entrou pelos ouvidos e conseguiu chegar na alma do espectador.
Coube a Daniela Mercury descascar um abacaxi, daqueles bem azedos. Cantora madura e com respaldo no cancioneiro brasileiro, a baiana elétrica ficou, paradoxalmente, com a batida e já sem graça, Esqueça, música da época da Jovem Guarda, e quem nem é de Roberto Carlos. E o pior: segurar "as pontas" para Wanderléa, cantora muito limitada que só foi escalada por fazer parte da trupe inicial de Roberto e Erasmo.
A verdade é que a homenagem feita pela mulherada, de um modo geral, foi bonita e elegante, mas também cansativa e pouco antenada com a musicalidade atual. Apesar da presença de instrumentistas contemporâneos na banda, como o percusionista Leonardo Reis, os arranjos tiveram ainda aquela cara de mil novecentos e "bolinha"! A sentida ausência de nomes como Maria Bethânia, Gal Costa, Simone, Marisa Monte e Vanessa da Mata, quase transforma Elas cantam Roberto em um verdadeiro desencanto.